Historia da Ortopedia em Minas Gerais
Márcio Ibrahim de Carvalho
A palavra ortopedia só foi cunhada em 1741, por Nicholas Andry, quando publicou um livro de texto com o título: Traité d’Orthopediae. (orthos – reto; paedis – criança)
A cirurgia do aparelho locomotor porém, vem sendo executada desde os primórdios da humanidade. Relatos de intervenções ortopédicas existem há 5 mil anos nos registros das civilizações egípcias, com Imhotep, seu Deus cirurgião. Técnicas descritas por Hipócrates, resistem a mais de 20 séculos, como a da redução da luxação do ombro.
Em 1733, Luís Gomes Ferreyra, cirurgião português, exercendo a profissão em Sabará e Vila Rica (Ouro Preto) . Relata a sua experiencia nas Minas de Ouro no Erário Mineral o segundo livro médico mais antigo do Brasil. Foi publicado em Lisboa em 1735 após 2 anos de tramitação para o Nihil Obstat do Santo Ofício. A técnica que aconselhou para tratamento das fraturas expostas mostra bom senso e experiência. “As fraturas com feridas abertas após a região ter sido exaustivamente lavada com aguardente, para remover o sangue e a terra, devem ter os ossos delicadamente recolocados na sua posição. Isso deve ser feito o mais rapidamente possível. O ar é muito danoso para o osso, que se exposto por período longo escurece e fragmenta-se. A ferida só virá a cicatrizar após um tempo muito prolongado e após todas as esquírolas terem sido eliminadas. Portanto os fragmentos livres que já existirem devem ser removidos. Só os cirurgiões idiotas fecham a ferida completamente.”
Nessa época o tratamento das fraturas era realizado pelo cirurgião geral e assim foi até o fim da primeira metade do século XX.
A Ortopedia proposta por Andry, era restrita às operações em crianças e sempre foi um ramo da cirurgia geral.
No Brasil a primeira tentativa de se criar um serviço de Ortopedia, aconteceu em 1840. A iniciativa foi de Antônio José Peixoto, mineiro de nascimento, graduado em cirurgia em Montpellier em 1837, e um ano após diplomado em medicina em Paris. De regresso ao Brasil, fez uma representação ao Imperador D. Pedro II, solicitando a criação da “Casa de Saúde e Instituto Ginástico Ortopédico, no Rio de Janeiro -para tratamento dos pacientes desprovidos”. Nessa representação propôs dar um curso gratuito sobre o que havia aprendido na França; “em patologia da coluna, pernas e braços, além de incluir todas as operações conhecidas“. Uma instituição semelhante criada por Delpech em Montpellier, com conceito internacional inspirou sua iniciativa. Embora tenha conseguido votos favoráveis, na Imperial Academia de Medicina, a decisão final foi para que ginástica ortopédica fosse ensinada no colégio Pedro II e ortopedia na Faculdade de Medicina.
150 anos mais tarde essa decisão é lamentada por Achilles de Araújo, professor de Ortopedia na Faculdade Nacional de Medicina e um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Ortopedia, que atribui à rivalidade entre os médicos o malogro da iniciativa. Revindica para o Dr. Peixoto o título de “Precursor da Ortopedia Brasileira”, considerando-o vítima da “Invidia Medicorum Péssima”.
Em Minas Gerais a cadeira de ortopedia só foi criada em 1919. Até 1918, na Faculdade de Medicina existia a cátedra denominada Pediatria Médica e Cirúrgica e Higiene Infantil. Nesse ano foi desdobrada, separando a clínica da cirurgia. O professor catedrático em exercício tendo preferido a cadeira clínica - a recém criada Ortopedia e Cirurgia Infantil foi colocada em concurso no próximo ano. O professor de Anatomia Descritiva, David Corrêa Rabelo a conquistou por concurso de títulos e provas. Natural de Diamantina, o Dr. David era formado no Rio de Janeiro em 1910 – com pós graduação em cirurgia em Paris e Berlim.
No magistério médico, David Rabelo é considerado o fundador da Ortopedia em nosso estado. Foi um mestre dedicado e combativo. Militou no Hospital São Vicente de Paula, exercendo grande liderança entre seus discípulos entre os quais destacaram-se José Neves Jr. e especialmente Pedro Salles que foi seu grande amigo, seguidor e autor de vários escritos sobre sua vida.
Sua convivência com a penúria dos operários da Central do Brasil, quando trabalhou na construção do trecho de Diamantina, fez dele um lutador contra a desigualdade. Foi um revolucionário em 1930, mais tarde chefiou a Aliança Nacional Libertadora em Minas. Sua participação ativa e intensa o levou a prisão em 1935. Dois anos mais tarde um acidente vascular cerebral o obrigou a aposentar-se aos 52 anos, tendo falecido em 1939 quando foi substituído por Pedro Salles.
Esses fatos, talvez, expliquem a ausência de Minas Gerais na fundação da Sociedade Brasileira de Ortopedia em 1935. Rezende Puech, Achilles de Araújo e Barros Lima de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife respectivamente foram os arquitetos da nova Sociedade, com o apoio de 40 ortopedistas.
No principio da década de 40 vários cirurgiões mineiros realizavam operações ortopédicas, especialmente em pacientes vítimas de traumatismos. O Dr. José Maria Figueiró destacou-se nessa área com seu serviço bastante ativo no Hospital São José. Nessa mesma época Breno Valentin um cirurgião ortopedista alemão, exerceu a especialidade no Hospital da Fundação Benjamin Guimarães (Hospital da Baleia). Wellerson Lourenço de Lima que era também professor de Anatomia e teve grande prestigio entre os estudantes, destacou-se como Traumatologista.
O primeiro médico mineiro com formação ortopédica como entendemos hoje foi o Prof. José Henrique Mata Machado, graduado em Belo Horizonte em 1938. No ano de 1942, já como assistente da Faculdade de Medicina, especializou-se em ortopedia pediátrica, com Blount nos EEUU. Após seu retorno em 1944 assumiu o serviço de ortopedia do Hospital da Baleia, onde instalou o primeiro programa de pós graduação no país, seguindo os moldes atuais de residência médica. Livre-docente em 1950 e desde 1954 professor catedrático da Faculdade de Medicina da UFMG. Até então o dr. Blair Ferreira que regia a cadeira desde a aposentadoria de Pedro Salles.
A Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais instalada em 1950 teve Brasílio Ruy Prates, cirurgião- geral de formação, mas com bastante experiência em operações no aparelho locomotor, como o primeiro professor de Ortopedia.
Com ele trabalharam na Santa Casa o Gutenberg Salazar Júnior, Hélio Lopes e Mário Chaves Corrêa. O Dr. Gutenberg foi o organizador e chefe do Serviço de Ortopedia do Hospital Municipal em 1953 (hoje Odilon Behrens).
No princípio da década de 50, regressa a Belo Horizonte, um grupo de ortopedistas treinados no exterior, na ortopedia moderna ou do pós guerra.
Nicolau Cardoso de Miranda, que organizou o Serviço do Hospital da Previdência, fez pós graduação no Instituto Rizzolli em Bolonha.
Marcílio Soares da Silva após mais de 5 anos de residência em Nova York, organiza um dinâmico centro ortopédico na Santa Casa e assume a cadeira na Faculdade de Ciências Médicas em 1959. Tendo como assistentes Euler Carvalho, Alberto Peres, Enguer Beraldo Garcia, Arildo Pains.
Logo a seguir chega de Chicago Márcio de Lima Castro, que caminha para a Reabilitação Ortopédica, e foi responsável pela construção do Hospital Arapiara e do Centro Mineiro de Reabilitação.
Na segunda metade da década outros dois retornam dos Estados Unidos. Após mestrado na Universidade de Pensilvânia e pós graduação na Universidade da Califórnia vem Márcio Ibrahim de Carvalho, que organiza a Ortopedia no Hospital Felício Rocho. Cerca de um ano mais tarde chega após 5 anos em Chicago Délio Menicucci, que passa a integrar a equipe do Felício Rocho. Dois anos após atraído pela recém inaugurada Escola de Medicina transfere-se para Uberlândia.
A Escola de Medicina de Juiz de Fora iniciou-se em 1952 e teve como seu primeiro professor, Maurício Medeiros Duarte, formado no Rio de Janeiro.
Em 1954 foi instalada a Escola de Medicina de Uberaba. Álvaro Lopes Cançado, o famoso “nariz”, titular da Seleção Brasileira de futebol, foi o primeiro professor.
Com todos esses acontecimentos na área de ortopedia em Minas, Belo Horizonte foi escolhida para sediar o seu primeiro Congresso de ortopedia em 1955. Por várias razões não pude abrigá-lo. Elias J. Kanan, assume a presidência e o realiza em Porto Alegre em 1956.
Em 1958 o departamento de ortopedia da Associação Médica de Minas Gerais fez convênio com a Sociedade Brasileira de Ortopedia e a Regional da Sociedade é instalada em Belo Horizonte, tendo Pedro Salles como seu presidente. A seguir o departamento passou a funcionar regularmente com reuniões mensais e uma nova Diretoria a cada dois anos. Foram presidentes: Márcio Ibrahim de Carvalho, Luiz Garcia Pedrosa, Mário Aurélio Pires, Marcílio Soares, Zanine Coura, José Márcio Gonçalves de Souza, Marcelo Magalhães, Arlindo Gomes Pardini que realizou o primeiro Congresso Mineiro de Ortopedia em 1976, desde esse Congresso vem se realizando bianualmente.
No Congresso Brasileiro de Ortopedia de 1963 no Rio de Janeiro, um ortopedista mineiro é eleito pela primeira vez para a Diretoria da SBOT. Ele juntamente com o vice presidente da SBOT, Gastão Dias Velloso conseguem a indicação de Belo Horizonte para sede do Congresso Nacional. Em 1965, em Ribeirão Preto, isso acontece. Os mineiros lá reunidos escolhem José Henrique para presidir o XVI Congresso Brasileiro, a ser realizado em 1967. Márcio Ibrahim de Carvalho, continua como Secretário da SBOT e ajuda a organizar o Congresso que tem como sede a Faculdade de Medicina.
O entusiasmo dos preparativos para esse Congresso propiciaram a oportunidade da criação da Revista Brasileira de Ortopedia, graças aos esforços da Comissão composta pelos médicos: José Henrique Matta Machado, José Márcio Gonçalves de Sousa, Márcio Ibrahim de Carvalho e Zanine Figueiredo Coura. O apoio da Biblioteca da Faculdade de Medicina, foi decisivo.
A Revista Brasileira de Ortopedia teve o seu primeiro numero em 1966 completa agora 36 anos. É editada mensalmente, perfazendo mais de 500 páginas por ano, sendo uma das revistas de ortopedia de maior tiragem no mundo.
Durante o Congresso de Belo Horizonte foi proposta reforma dos Estatutos da Sociedade, permitindo a separação do Congresso das atribuições da Diretoria que até então tinha como única tarefa o seu preparo e realização.
Segundo Bruno Maia, autor do livro, Historia da Ortopedia Brasileira, “no biênio 1967-1969, que se seguiu ao Congresso Mineiro, a SBOT atingiu a sua maioridade”.
Nesse congresso o mineiro, Gastão Dias Velloso foi eleito Presidente da SBOT. De acordo com os novos estatutos indicou Geraldo Pedra, (professor de Ortopedia em Goiânia) e seu ex-residente no Hospital dos Servidores no Rio, para presidir o próximo Congresso, Brasília foi a sua sede. Ambos eram mineiros, ex-alunos da nossa Faculdade de Medicina e tendo anteriormente exercido a ortopedia entre nós.
Nesse biênio, sob supervisão direta da SBOT, através da recém criada, Comissão de Ensino e Treinamento, foi iniciado o programa Oficial de Residência Médica.
Trinta serviços de Ortopedia no país preencheram as qualificações exigidas. Em Minas Gerais foram 4: Hospital das Clinicas da UFMG, Santa Casa (Faculdade de Ciências Medicas), Hospital Felício Rocho e Hospital Sarah Kubitscheck respectivamente sob a coordenação de José Henrique Matta Machado, Marcílio Soares, Márcio Ibrahim de Carvalho e José Márcio Gonçalves de Souza. O titulo oficial de especialista em ortopedia, pela SBOT e AMB seria então concedido após dois anos de treinamento em regime de dedicação exclusiva em um desses Hospitais sob supervisão da Comissão de Ensino da SBOT e aprovação em exame escrito e oral. (Hoje são exigidos três anos.)
Como o presidente da Comissão era de Belo Horizonte (Márcio Ibrahim de Carvalho), esta cidade foi a sede do primeiro exame Nacional para outorga do titulo.
Uma banca composta de 25 chefes de Serviços de ortopedia, dos quais 16 professores Titulares passou três dias entre nós em fevereiro de 1972, examinando 59 candidatos. 54 foram aprovados. Os primeiros lugares ficaram com Minas Gerais e Paraná. ( Hospital Felício Rocho em Belo Horizonte e do Hospital das Clínicas de Curitiba.)
Esse resultado demonstrou que já havia boa ortopedia no país além da praticada no Rio de Janeiro e São Paulo. Isso contribuiu para grande repercussão do Exame e para que o mesmo continuasse a ser realizado em Belo Horizonte. As facilidades do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos, que o sediou foi outro fator de êxito. Por quatro anos Minas foi a sede do Concurso Nacional.
Desde então o exame é anual e muito eficiente, tendo servido de modelo para outras especialidades e recebido elogios de observadores estrangeiros.
Com a sobrecarga da organização do exame a direção da Revista foi transferida para o Rio de Janeiro (Donato D’ Angelo).
A criação da Revista Brasileira de Ortopedia e a instituição do exame, nos moldes do “American Board” “muito influíram nos novos rumos da nossa Sociedade” afirma Bruno Maia na sua, História de Ortopedia Brasileira.
Como mencionamos o primeiro Congresso Estadual foi presidido por Arlindo Pardini e realizou-se em Poços de Caldas. Seu grande sucesso garantiu a realização de outros a cada dois anos. Célio Elias organizou o segundo em Araxá. O terceiro teve como sede São Lourenço sob a presidência de Sérgio Drummond.
Jorge Sunam Vieira, Nelson Baisi, Ronaldo Percope, Tiago Jacques Gonçalves, Alberto Peres, Mércio Ataide Vieira, Antônio Carlos Garrido, Manuel Araújo Porto, Marco Antônio Percope e Enguer Beraldo Garcia foram seus presidentes em ordem cronológica. Sob suas respectivas presidência Araxá, São Lourenço, Juiz de Fora, Uberlândia e Ouro Preto tem-se alternado com Belo Horizonte para anfitrioná-lo.
O impacto causado pelo lançamento da Revista e do Programa Nacional de Residência trouxe o foco da ortopedia para Minas e seis anos após o primeiro Congresso Nacional acontecido em Minas, o presidente da Comissão de Ensino é eleito Presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia. (1975-77).
O IIIº Congresso Brasileiro de Cirurgia de Pé também teve Belo Horizonte como sede, sob a sua presidência em 1983, na qualidade de vice-presidente dessa Sociedade.
No ano seguinte, 1984, Minas novamente é escolhida para sediar o XXIV Congresso da SBOT. As novas facilidades do Minas Centro propiciaram estrutura para um conclave com mais de 2000 participantes.
O Congresso foi organizado pela seguinte Comissão:
Presidente: Márcio Ibrahim de Carvalho, Secretario: Antônio Carlos de Castro; Comissão Cientifica: José Márcio Gonçalves de Sousa, Mércio Ataide Vieira e Zanine Figueiredo Coura. Os organizadores do Congresso consideraram que a superespecialização além de inevitável já era também imprescindível. Assim, pela primeira vez em nossos Congressos de Ortopedia os assuntos foram agrupados de acordo com a sub-especialidade, em cada uma das cinco salas do Minas Centro.
O interesse pela Ortopedia e Traumatologia continua em ascensão no nosso estado, que conta com 767 especialistas como membros da SBOT. Atualmente 15 Hospitais em Minas estão credenciados para treinamento de residentes. A lista com os respectivos coordenadores fornecida pela Comissão de Ensino da SBOT é a seguinte:
1- Hospital Universitário São José - Faculdade de Ciências Médicas, Neylor Pace Lasmar;
2- Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, Uberaba, José de Barros;
3- Universidade Federal de Uberlândia, Roberto Tavares Canto;
4- Hospital Ortopédico, Arlindo Gomes Pardini Júnior;
5- Hospital São Bento, Carlos Antônio Garrido;
6-Hospital Mater Dei, Rogério Miranda de Melo;
7- Hospital Amélia Lins - FHEMIG, Gilberto Ferreira Braga;
8- Hospital Socor, Emerson Fedelis Campos;
9- Hospital Felício Rocho, Mércio Ataide Vieira;
10- Hospital da Baleia, Ary Américo Araújo;
11- Hospital Madre Teresa, Ronaldo Percope de Andrade;
12- Santa Casa de Belo Horizonte, Euler José Viana de Carvalho;
13- Faculdade de Medicina UFMG, Marco Antônio Percope de Andrade;
14- Hospital da Previdência- IPSEMG, Marco Antônio Castro Veado e
15- Hospital Vera Cruz, Camilo Gomes de Souza Neto.
O 33º Congresso Brasileiro de Ortopedia (novembro de 2001) realizou-se em Belo Horizonte, tendo Neylor Lasmar como presidente que foi eleito próximo presidente da SBOT.
Finalmente em julho de 2002 O Minas Centro abrigou a XIII Congresso Mineiro sob presidência de Enguer Beraldo Garcia. Nesse Congresso José Alexandre Reale Pereira foi eleito o presidente do Regional de Minas da SBOT.
Observação: Esta página poderá ser alterada de acordo com resoluções da Comissão do Memorial da Ortopedia Mineira.
Solicitamos aos colegas da Regional MG que nos enviem informações para fazer desta página uma história fiel do nosso passado.